Era o início de novembro quando Maria decidiu retornar à antiga casa da família, uma construção erguida nos anos 40, esquecida no tempo e pelo restante dos parentes. O imóvel, situado no fim de uma estrada rural, era espaçoso, mas sempre teve uma aura inquietante. Maria não era supersticiosa, mas algo naquela casa parecia respirar.
Ao empurrar a porta principal, a madeira rangeu como se há muito não fosse tocada. O ar lá dentro era pesado, denso com o cheiro de mofo e memórias velhas. A casa estava silenciosa, mas não vazia. Era como se as paredes guardassem ecos de passos, sussurros e risadas de outros tempos.
Maria subiu para o andar de cima, passando os dedos pela escada que ainda trazia marcas de infância – pequenos arranhões, manchas de tinta descascada. No quarto principal, onde seus pais dormiam, algo a fez parar.
No teto, bem no centro, havia um buraco.
O círculo negro era imperfeito, com bordas ásperas e descascadas, como se algo tivesse corroído o teto de dentro para fora. A luz do fim de tarde, que entrava tímida pelas janelas empoeiradas, parecia evitá-lo, lançando sombras onde deveria haver claridade.Curiosa e ligeiramente incomodada, Maria pegou uma cadeira para se aproximar. Conforme subia, uma brisa gélida passou por ela, fazendo-a estremecer. A casa não tinha energia elétrica há anos, mas um fio de ar percorreu sua nuca, vindo do buraco.
— Deve ser um rato... ou algo pior — murmurou para si mesma, tentando transformar o incômodo em piada.Ao chegar mais perto, sentiu o coração acelerar. O buraco parecia pulsar, como se fosse uma coisa viva. Dentro dele, não havia apenas escuridão, mas uma textura quase orgânica, como carne exposta. Tentando entender melhor, Maria pegou o celular para iluminar.Quando o feixe de luz tocou o interior, ela viu algo que a fez recuar tão rápido que quase caiu da cadeira: olhos. Dois olhos amarelados a encaravam lá dentro, imóveis, sem pálpebras, sem piscar.
Ela caiu no chão, respirando ofegante, o celular ainda apontado para cima. Os olhos haviam sumido. Ou nunca estiveram lá? Talvez fosse uma ilusão causada pelo nervosismo e a escuridão.Tentando se acalmar, decidiu ligar para seu irmão, Fernando, que vivia em outra cidade. Ele atendeu com a voz irritada, típica de alguém ocupado demais para lidar com problemas familiares.
— Um buraco no teto? E daí? É só consertar isso. Já passou da hora de venderem essa casa.
— Fernando, você não entende... havia algo lá dentro. Algo me olhando!
— Deve ter sido algum animal. Sabe o que? Pega uma lanterna, dá uma olhada e, se for bicho, espanta.Fernando desligou antes que ela pudesse protestar. Sozinha novamente, Maria tentou reunir coragem. Pegou uma vassoura e cutucou o buraco. Nada.
Decidiu que precisava examinar mais de perto. Pegou uma escada que estava no porão e subiu novamente. Quando chegou ao topo, algo viscoso escorreu pelo cabo da lanterna: um líquido negro, pegajoso, com um cheiro acre que a fez querer vomitar. De repente, ouviu um som vindo do buraco. Não era um rosnado, nem um farfalhar de asas. Era uma risada. Uma risada abafada, rouca, quase infantil.Maria desceu da escada num salto, o peito apertado pela adrenalina. O buraco parecia maior agora, como se tivesse se alimentado do próprio teto. O quarto estava mais frio, o ar carregado de algo que parecia errado, distorcido.
Sem pensar, ela correu para fora da casa, a respiração curta, o corpo tremendo. Do lado de fora, o sol já se punha, lançando sombras longas pelo quintal. Antes de entrar no carro, olhou para a janela do quarto principal. Por um instante, jurou ver algo se movendo lá dentro, uma silhueta escura que se aproximava da janela. E então, no reflexo do vidro, viu os olhos novamente. Ela nunca mais voltou para aquela casa.
Anos depois, quando a propriedade foi demolida, o empreiteiro contou a história do buraco. Disse que, ao destruir o teto, encontrou uma cavidade que não fazia parte da estrutura. Algo que parecia um ninho... ou um túmulo. Dentro, havia marcas de unhas arranhando o concreto, como se algo, ou alguém, tivesse tentado sair.
