Por Aida C. Violet
Publicado em 17 ABRIL 2026,17h28
A história oficial, muitas vezes escrita sob o olhar masculino, demorou a conceder às mulheres o lugar que sempre lhes pertenceu. Quitéria, espetáculo do Grupo Cordel, surge como gesto artístico de reparação e celebração ao colocar no centro da cena a trajetória de Maria Quitéria de Jesus, heroína da Independência do Brasil e primeira mulher a integrar o Exército Brasileiro.
Créditos das fotografias: REGISTRO IMPRENSA
Mais do que uma montagem histórica, Quitéria é um reencontro com a memória brasileira. Integrando o projeto “Trilhando os Caminhos de Maria Quitéria”, o espetáculo refaz simbolicamente os passos dessa mulher extraordinária que, em pleno século XIX, desafiou convenções sociais, vestiu-se como homem para lutar e tornou-se símbolo de coragem em um país ainda preso às amarras do patriarcado colonial.
Há algo profundamente cinematográfico em sua trajetória. Maria Quitéria possui a grandeza épica de personagens como Joana d’Arc em The Messenger ou das guerreiras silenciosas dos dramas históricos contemporâneos. No entanto, sua história é real — e brasileira. O que torna a peça ainda mais necessária é justamente esse resgate: lembrar que nossos heróis nacionais também têm rosto feminino, sotaque baiano e raízes populares.
O Grupo Cordel, reconhecido por seu compromisso com narrativas identitárias e populares, transforma essa biografia em experiência cênica emocionante. A linguagem teatral, ao unir música, corpo e palavra, amplia a potência simbólica da personagem. Quitéria deixa de ser apenas figura dos livros escolares para tornar-se mulher viva diante do público: inquieta, determinada, humana.
Em tempos em que se discute representatividade e revisão histórica, o espetáculo se impõe como obra urgente. Ele não apenas narra fatos passados, mas provoca perguntas contemporâneas: quantas Quitérias ainda permanecem invisíveis? Quantas mulheres continuam precisando vestir armaduras para ocupar espaços que lhes são de direito?
Há também o valor afetivo de ser uma produção 100% baiana, reafirmando a força cultural do estado na preservação e reinvenção da memória nacional. Salvador, cidade marcada por lutas, ancestralidade e resistência, torna-se cenário ideal para receber essa homenagem.
O espetáculo será apresentado nos dias 17 e 18 de abril, às 20h, no Teatro Molière, localizado na Ladeira da Barra, em Salvador. Com classificação indicativa de 12 anos, a montagem convida públicos de diferentes gerações a conhecerem — ou redescobrirem — uma figura fundamental da nossa história.
Assistir a Quitéria é compreender que independência não se faz apenas com espadas e batalhas, mas também com memória. E talvez o maior triunfo dessa peça seja lembrar ao Brasil que suas heroínas nunca deixaram de existir — apenas esperavam que a luz do palco as reencontrasse.
Por, aidac.violet
