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Wey Criativa

Por  Aida C. Violet

     Publicado em 17 ABRIL 2026,13h21

Há espetáculos que apenas entretêm, e há aqueles que nos atravessam. Insuficiente, primeiro monólogo de Lucas Luan Lima, pertence à segunda categoria. Entre a comédia e o drama, entre a memória e a ferida, a peça transforma o palco em um espaço de confissão, confronto e reconstrução emocional. 

Créditos das fotografias: REGISTRO IMPRENSA

   Criado, escrito e interpretado por Lucas Luan Lima, com direção de Lion Guimarães, o espetáculo acompanha Matheus, um homem que, após o fim de um relacionamento, se vê incapaz de compreender os motivos que o levaram a encerrar a história que parecia ser o grande amor de sua vida. A partir dessa ruptura, o público é conduzido por uma narrativa íntima, em que lembranças da infância, traumas antigos e vínculos familiares emergem como peças de um quebra-cabeça emocional.

O abandono afetivo, tema central da montagem, é tratado com delicadeza e inteligência. Não como conceito abstrato, mas como ausência concreta que molda comportamentos, escolhas e silenciosamente acompanha a vida adulta. A falta de escuta, de acolhimento e de presença torna-se personagem invisível em cena. É ela que ecoa nas inseguranças de Matheus, em sua dificuldade de amar e em sua tentativa desesperada de compreender a si mesmo.

     O texto de Lucas Luan Lima acerta ao equilibrar densidade emocional com humor. Em vez de afundar o espectador apenas na dor, a peça oferece respiros cômicos que tornam a experiência ainda mais humana. Rimos porque reconhecemos os absurdos da vida, os constrangimentos familiares, os fracassos terapêuticos e as tentativas tortas de seguir em frente. Há algo de universal nessa fragilidade.

A direção de Lion Guimarães valoriza precisamente essa oscilação entre riso e desconforto. O ritmo cênico mantém a plateia atenta enquanto a narrativa se desdobra em múltiplas figuras: a mãe difícil, o pai ausente, o irmão distante, o amigo inconveniente, a paixão antiga e o trauma que insiste em não ser nomeado. Tudo isso emerge por meio de uma encenação dinâmica, viva e sensível.

Um dos maiores trunfos de Insuficiente está em seu caráter interativo. Cada apresentação se transforma conforme a resposta do público, criando uma experiência singular e orgânica. O espectador deixa de ser observador passivo para tornar-se cúmplice daquela jornada emocional. É um teatro que escuta de volta.

Há ecos de obras cinematográficas como Fleabag, pela mistura de humor ácido e vulnerabilidade emocional, e de Good Will Hunting, ao abordar dores antigas mascaradas por ironia e resistência afetiva. Ainda assim, Insuficiente encontra voz própria ao tratar essas questões dentro de um contexto brasileiro íntimo e reconhecível.

O espetáculo será apresentado em Salvador, nos dias 22 e 23 de abril, no Teatro SESI Rio Vermelho. Também circulará por outras cidades da Bahia: Camaçari, nos dias 24 e 26 de abril, no Teatro Cidade do Saber, e Alagoinhas, no dia 25 de abril, no Centro de Cultura de Alagoinhas. 

Por, aidac.violet