Por Aida C. Violet
Publicado em 29 jan 2024,17h18
A pequena vila de Santa Esperança era cercada por colinas verdejantes e campos intermináveis. No centro da praça principal, havia um poço antigo, construído há séculos, com paredes de pedras irregulares e um arco de ferro enferrujado segurando a corda e o balde.
Ninguém usava o poço havia anos. A vila agora tinha um sistema de água encanada, mas o poço continuava ali, uma relíquia de tempos passados. Os moradores evitavam passar muito perto dele, especialmente à noite. Diziam que o poço era amaldiçoado.
Clara, uma jovem jornalista recém-chegada à vila, achava as histórias fascinantes. Estava ali para escrever uma matéria sobre lendas locais e o poço parecia ser o ponto de partida perfeito.
— Cuidado, menina — advertiu Dona Elza, a senhora que alugava um quarto para Clara. — Não se brinca com o que não se entende.
Clara apenas sorriu. Amaldiçoado ou não, o poço renderia um bom texto.
Na primeira noite, levou sua câmera e um gravador até a praça. O vento frio da noite carregava um silêncio inquietante, quebrado apenas pelo som de suas botas no chão de paralelepípedos. Ao se aproximar do poço, um arrepio percorreu sua espinha. Não era medo, dizia a si mesma. Apenas a expectativa de algo interessante.
Ligou o gravador e começou a descrever o cenário.
— Estou diante do poço de Santa Esperança, que, segundo os moradores, é palco de eventos sobrenaturais. Dizem que quem se inclina para ouvir o fundo do poço…
Ela parou. Algo interrompeu sua fala: um som baixo e distante, vindo do poço.
— Deve ser o eco… — murmurou, mas sua voz tremeu.
Curiosa, Clara se inclinou sobre a borda, apontando a câmera para o buraco escuro. Não havia fundo visível, apenas uma escuridão que parecia devorar a luz.
Então, ouviu novamente. Não era um eco. Era uma voz.
— Ajude-me…
Clara congelou. A voz era fraca, mas clara, quase um sussurro.
— Tem alguém aí? — perguntou, a voz carregada de incredulidade.
Nenhuma resposta. Apenas o som do vento. Mas, quando estava prestes a se afastar, ouviu de novo, desta vez mais alto:
— Por favor, ajude-me!
Sem pensar, pegou o balde preso à corda e o lançou para baixo. O barulho do balde batendo contra as paredes do poço ressoou no silêncio da noite. Ela esperou, segurando a corda com força.
Nada.
Quando começou a puxar, sentiu a corda pesada, como se algo estivesse preso ao balde. A adrenalina a fez puxar mais rápido, o coração disparado. Quando o balde finalmente surgiu à superfície, estava vazio, mas coberto por uma substância viscosa e negra.
Clara recuou, a mão suja pelo líquido pegajoso. Um cheiro nauseante preencheu o ar, como carne apodrecida.
Antes que pudesse reagir, a voz voltou, agora mais alta e mais próxima.
— Por que não me salvou?
Clara girou, olhando ao redor. A praça estava vazia, mas o som parecia vir de todos os lados. O poço começou a vibrar levemente, as pedras rangendo, e a corda balançou como se alguém estivesse subindo.
Ela correu, deixando a câmera e o gravador para trás.
Na manhã seguinte, decidiu voltar para pegar o equipamento. O poço parecia inofensivo sob a luz do dia. Mas, ao olhar para dentro, encontrou algo que a fez recuar em pânico: seu gravador estava no fundo do poço, coberto pela mesma substância negra.
Mais tarde, ao ouvir a gravação recuperada, Clara percebeu algo terrível. Entre os sussurros captados, havia uma voz que não era dela, repetindo lentamente:
— Você será a próxima.
