Por Maria Júlia Portela
Publicado em 09 setembro 2025, 19h31
A persistência da resistência em cena
Eugène Ionesco, mestre do teatro do absurdo, nos presenteou com O Rinoceronte (1959), uma das mais poderosas metáforas cênicas do século XX. Nela, acompanhamos Bérenger em meio a uma sociedade que, uma a uma, se deixa contagiar pelo conformismo, transformando-se em rinoceronte — imagem brutal do totalitarismo e da renúncia à humanidade. Décadas depois, o ator e dramaturgo Lion Guimarães @lionguimaraes dá continuidade a essa reflexão no espetáculo Os Rinocerontes, que se estende como um eco pós-apocalíptico da obra original.
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Com 45 minutos de duração e classificação indicativa de 14 anos, a peça nos conduz ao desfecho daquilo que Ionesco apenas insinuou: o que acontece quando todos cedem? Em cena, Bérenger é agora o último homem em um mundo devastado pela homogeneização. A solidão desse personagem ressoa em um silêncio incômodo, como se fosse o vazio deixado por uma sociedade que abdicou de sua essência. Lion Guimarães, também intérprete do protagonista, se entrega à densidade desse dilema com visceralidade, conduzindo o público a um mergulho existencial doloroso e ao mesmo tempo urgente.
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A encenação, sob a direção de Geovane Mascarenhas @geomasc, potencializa o caráter crítico do texto, explorando a corporeidade, a sombra e a atmosfera minimalista para transmitir a ideia de desumanização. A escolha de uma estética que valoriza o vazio cênico reflete o que restou de uma civilização que se rendeu à passividade: o palco é transformado em metáfora de um mundo esvaziado de humanidade, mas ainda habitado por uma voz resistente.
No fundo, a provocação permanece atual: “Por comodismo, por inércia, por interesse, os conformados seguem passivamente a manada”. O texto de Guimarães, ao mesmo tempo homenagem e reinterpretação de Ionesco, não se limita a revisitar o absurdo, mas o atualiza diante de novos contextos políticos e sociais. É um teatro que insiste em questionar, que incomoda, que convoca o espectador a não se deixar reduzir a títere de sistemas esmagadores.
Os Rinocerontes reafirma a força de uma dramaturgia que olha para o passado para denunciar o presente. Se Ionesco nos mostrou o risco da transformação. O espetáculo será apresentado nos dias 26 e 27 de julho de 2024, no CUCA – Centro Universitário de Cultura e Arte da UEFS, em Feira de Santana – BA, em sessões abertas ao público. Uma oportunidade rara de testemunhar a força de uma dramaturgia que olha para o passado para denunciar o presente, reafirmando que, se Ionesco nos mostrou o risco da transformação, Lion Guimarães e Geovane Mascarenhas nos lembram do preço da resistência — e do perigo da solidão em meio à massa.
Maria Júlia Portela / @majuport
