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Wey Criativa

Por Aida C. Violet

     Publicado em 15 Jan 2025, 22h33

Créditos: foto original, do italiano Giovanni Marrozzini 

Alguns romances não são apenas histórias; são sementes que germinam na consciência do leitor. Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, é uma dessas obras raras, que florescem em reflexões profundas sobre a terra, a ancestralidade e as vozes que, por tanto tempo, foram silenciadas.

“O desalento que se abateu sobre todos com a prolongada estiagem contrastava com o sopro de vida que tudo aquilo poderia ser para nós.” Trecho do livro: Pag 79.

Premiado com o Jabuti e o Oceanos, Torto Arado surge como uma das obras mais importantes da literatura contemporânea brasileira. Publicado em 2019, o romance nos apresenta uma Bahia visceral, onde a terra não é apenas um cenário, mas uma protagonista que respira, sofre e testemunha as vidas dos que dela dependem.

A narrativa, centrada nas irmãs Bibiana e Belonísia, é uma história de laços que vão além do sangue, unindo-se à terra e às lutas históricas de comunidades quilombolas. Desde o primeiro capítulo, em que um acidente marca de forma indelével a vida das meninas, Itamar constrói uma trama carregada de simbolismos. A faca, instrumento de trabalho e violência, torna-se um elo visceral entre as irmãs e o destino que compartilham.

O romance é contado em vozes alternadas, uma escolha narrativa que amplifica a dimensão íntima e política da obra. Se Bibiana encarna a resistência ativa, Belonísia representa a força silenciosa. Itamar nos conduz a uma reflexão sobre o que significa resistir: gritar ou permanecer firme, como as árvores que suportam as tempestades sem quebrar.

A Bahia retratada por Itamar não é a das praias e do carnaval, mas a dos sertões, dos trabalhadores rurais explorados, das vidas moldadas pelo latifúndio e pela escravidão que nunca terminou completamente. Ele mergulha em temas como a desigualdade fundiária, o racismo estrutural e as heranças da escravidão com uma prosa poética que lembra Graciliano Ramos e Toni Morrison. A sua escrita, ao mesmo tempo sensível e contundente, transforma o simples em sublime.

Não é à toa que Torto Arado encontra ressonância no cinema de diretores como Glauber Rocha e na estética do realismo mágico de Gabriel García Márquez. A relação quase espiritual entre as personagens e a terra evoca obras como Deus e o Diabo na Terra do Sol e Cem Anos de Solidão, em que o mundo físico e o místico se entrelaçam. O romance tem algo de cinematográfico em si, com paisagens descritas de maneira tão palpável que quase ouvimos o farfalhar das folhas e sentimos o cheiro da terra molhada.

Mas o maior mérito de Torto Arado talvez seja dar voz a quem sempre esteve à margem. As mulheres negras, os trabalhadores rurais, os descendentes de escravizados encontram na prosa de Itamar uma plataforma para contar suas histórias. Ele não apenas escreve sobre essas pessoas; ele escreve com elas, em um gesto literário de profunda empatia e respeito.

Ler Torto Arado é um convite a enxergar o Brasil de forma mais ampla, mais justa, mais consciente. É um lembrete de que nossa terra é rica, mas carrega as cicatrizes de suas contradições. E, como nos ensina Itamar, são essas cicatrizes que moldam nossa identidade.

A força simbólica de Torto Arado também conquistou os palcos. Em 2023, o romance foi adaptado em um musical dirigido por Zebrinha, com canções originais de Luedji Luna e Mateus Aleluia. O espetáculo trouxe a história das irmãs Bibiana e Belonísia para um formato que integra música, teatro e performance, destacando a potência da oralidade e da cultura afro-brasileira. O musical foi celebrado pela crítica por sua capacidade de traduzir a riqueza poética da obra para o palco, criando uma experiência sensorial e emocional marcante.

Créditos: Torto Arado, o musical — Foto: Divulgação/Caio Lirio 

Afinal, como nos perguntam Bibiana e Belonísia em silêncio: qual é o nosso compromisso com o solo que nos nutre e com as vozes que dele emergem?