Por Aida C. Violet
Publicado em 23 jan 2024,16h15
A casa na Rua das Palmeiras era pequena, mas tinha um charme peculiar. Camila, que havia acabado de se mudar, adorava o lugar. A única peça que não parecia pertencer à casa era um espelho antigo pendurado na sala de estar, com moldura dourada e detalhes florais esculpidos em madeira.
O espelho fora deixado pelos antigos moradores, e Camila decidiu mantê-lo. Ele dava um toque clássico ao ambiente. No entanto, algo nele a incomodava. Não era a aparência, mas a sensação estranha de que o espelho refletia mais do que o simples ambiente.
Na primeira noite, enquanto lia um livro no sofá, Camila sentiu um movimento pelo canto do olho. Levantou o olhar para o espelho, mas não viu nada além de seu próprio reflexo e o da sala vazia.
— Paranoia. — Sorriu para si mesma, tentando se acalmar.
No entanto, as coisas começaram a mudar.
Um dia, ao passar pela sala, notou que o reflexo do relógio na parede não marcava a mesma hora que o relógio real. Era uma diferença sutil, mas perturbadora. Ela se aproximou do espelho, tocou a moldura e olhou fixamente. A sensação de que alguém a observava aumentou.
As noites seguintes trouxeram sonhos estranhos. Ela sonhava com um corredor longo e escuro, com dezenas de espelhos alinhados nas paredes. Em cada um, via sua própria imagem, mas os reflexos não se moviam como deveriam. Eles a observavam com um sorriso que ela não conseguia reproduzir.
Certa madrugada, acordou sobressaltada. A casa estava mergulhada no silêncio, mas algo parecia fora do lugar. Na sala, o espelho brilhava com uma luz fraca, como se estivesse iluminado por dentro. Camila se aproximou lentamente, o coração batendo forte.
No reflexo, a sala parecia a mesma, exceto por uma figura indistinta ao fundo. Parecia estar parada no corredor que levava aos quartos. Ela se virou rapidamente, mas não havia nada ali.
Quando voltou os olhos para o espelho, a figura estava mais próxima.
— Isso não é real… — disse em voz baixa, tentando convencer a si mesma enquanto recuava.
Na noite seguinte, decidiu cobrir o espelho com um lençol. Funcionou por algumas horas, até que ouviu um som baixo, como um dedo deslizando sobre vidro. Quando se aproximou, viu que o lençol havia caído.
No reflexo, agora havia várias figuras. Todas paradas, imóveis, com olhos escuros e rostos indistintos. Uma delas estava tão perto que parecia prestes a atravessar o vidro.
Foi quando ouviu a primeira batida.
O som veio do espelho. Uma, duas, três vezes, como se alguém estivesse do outro lado, tentando entrar. Camila gritou e correu para fora da casa, deixando tudo para trás.
No dia seguinte, contratou um serviço para remover o espelho, mas, ao retornar, encontrou o objeto exatamente onde estava, como se nunca tivesse sido tocado.
Camila nunca conseguiu se livrar dele. E, todas as noites, enquanto tenta dormir, ouve as batidas vindo da sala, cada vez mais altas. Cada vez mais perto.
