Por Aida C. Violet
Publicado em 15 jan 2024, 11h25
A casa era velha, mas ainda ostentava o que restava de uma elegância perdida no tempo. No centro da sala de jantar, uma imponente mesa de madeira escura dominava o ambiente. Seu tampo era liso e brilhante, mas as pernas eram ornadas com entalhes de figuras humanas, curvadas como se carregassem o peso da própria mesa.
Camila não sabia ao certo por que aceitara a oferta. A mesa pertencia à sua tia-avó, morta há poucos meses, e ninguém mais da família queria ficar com ela. “Muito grande”, diziam. “Muito sombria.” Camila, sempre atraída por peças antigas e carregadas de histórias, não se importou.
No dia em que a mesa chegou, a casa pareceu diferente. Camila tentou ignorar o incômodo que crescia dentro de si. Era só um móvel, afinal. Mas à medida que as horas passavam, ela começou a perceber detalhes que não notara antes.
Os entalhes nas pernas da mesa eram mais perturbadores sob a luz certa: os rostos das figuras humanas tinham expressões de dor, as bocas abertas em gritos mudos. Era estranho, mas Camila convenceu-se de que era apenas a imaginação pregando peças.
Naquela noite, enquanto jantava sozinha, o silêncio da casa foi rompido por um som baixo, quase imperceptível. Um ranger. Inicialmente, pensou ser o vento. Porém, quando olhou para a mesa, viu o tampo vibrar levemente, como se algo por baixo estivesse se movendo.
Ela levantou-se de repente, a cadeira arrastando pelo chão. A mesa parou. O tampo estava imóvel, e o silêncio voltou, mais pesado do que antes.
Nos dias que se seguiram, Camila começou a notar mudanças no ambiente. As refeições nunca pareciam suficientes; a fome era constante. Além disso, os sonhos começaram. Ela se via sentada à mesa, cercada por figuras indistintas, sombras que sussurravam palavras incompreensíveis. Quando acordava, sentia-se exausta, como se tivesse passado a noite em vigília.
Um dia, ao limpar a mesa, encontrou algo estranho: marcas de unhas na parte inferior do tampo. Ranhuras profundas, como se alguém tivesse arranhado desesperadamente a madeira, tentando escapar de algo.
— É só madeira velha… — murmurou, tentando se convencer.
Mas na noite seguinte, a verdade se tornou impossível de ignorar.
Enquanto terminava de arrumar a cozinha, ouviu um som de arrastar vindo da sala de jantar. Quando se aproximou, viu as cadeiras dispostas ao redor da mesa. O detalhe que a fez recuar foi que elas estavam ocupadas.
Formas indistintas, sombras de pessoas que não deveriam estar ali, estavam sentadas, imóveis, com cabeças inclinadas em direção à mesa. Camila piscou várias vezes, certa de que era um truque de luz. Mas as sombras permaneceram, e quando uma delas lentamente virou o rosto em sua direção, ela sentiu um frio cortar sua espinha.
— O que vocês querem? — sussurrou, sua voz falhando.
As figuras se levantaram ao mesmo tempo, e o tampo da mesa começou a tremer novamente, desta vez mais forte, como se estivesse vivo. Camila gritou, correndo para o quarto e trancando a porta atrás de si.
Naquela noite, os sussurros foram mais altos. Não apenas nos sonhos, mas preenchendo toda a casa. A palavra repetida incessantemente era clara: “fome”.
Na manhã seguinte, Camila decidiu se livrar da mesa. Ligou para um antiquário, e um homem veio buscá-la. Ele olhou para a peça com curiosidade e uma pontada de nervosismo.
— A senhora tem certeza de que quer se desfazer dela? É uma peça rara… mas, se me permite perguntar, de onde veio?
— Era da minha tia-avó. Não sei muito sobre ela. Só… só leve isso.
O homem assentiu, mas, enquanto a carregava para fora, murmurou algo que fez Camila gelar.
— É um alívio que queira se livrar dela. Essas mesas eram comuns em certos círculos… digamos, ocultistas. Muitas histórias desagradáveis.
Camila nunca perguntou mais nada. Depois que a mesa foi embora, os sonhos cessaram e a casa voltou a ser apenas uma casa. Mas às vezes, ao passar pela sala de jantar, ainda sente como se algo estivesse faltando.
Como se a mesa ainda estivesse esperando por ela.
